
Marcos Trad: “Estamos planejando a cidade para 1,5 milhão de habitantes”
Com emblemática obra concluída em 2019, o prefeito faz balanço da gestão e diz ter planos para possível segundo mandato
Em 2020, o prefeito Marcos Trad (PSD) entra em seu quarto ano de mandato. Depois de um 2019 em que inaugurou sua obra mais marcante até o momento, a revitalização da Rua 14 de Julho, as perspectivas vão além deste ano ou da próxima década. “Nossas obras são pensadas para uma cidade de, pelo menos, 1,5 milhão de habitantes”, diz o prefeito. Para falar do futuro e fazer um balanço de seus três anos de administração, o chefe do Executivo foi entrevistado pelo Correio do Estado e, ao falar de mobilidade urbana, cobrou ajuda do Estado e da União com as gratuidades e também falou sobre o diálogo que o torna um prefeito praticamente sem oposição na Câmara, com apenas um vereador que vota contra seus projetos. Também, como não poderia deixar de ser, falou de saúde, educação, esporte e do Reviva Campo Grande e suas próximas etapas.
CORREIO PERGUNTA – Como Campo Grande entra na próxima década?
MARCOS TRAD – Desde que eu entrei, foquei três pontos que os meus professores de Direito Administrativo e dos cursos posteriores que eu fiz de planejamento sempre disseram sobre uma ideia tornar-se exitosa ou não. Se você tem uma ideia, tem de agir para colocá-la em prática, e um triângulo ilustra muito bem isso. Um dos lados é o planejamento, o outro é a estratégia e o terceiro a execução. Não adianta só planejar, mas é necessário fazer planos para não ocorrerem falhas. O segundo ponto, quais as estratégias? Existe uma maneira de conduzir sua equipe. Por isso, delimitamos a equipe para que se cumpram as metas. Por fim, a execução com foco, objetividade e determinação. Como reunimos essas três características essenciais? Formando uma equipe que acredite na gente. Ela tem de abraçar a ideia e se entregar para a realização. A possibilidade de acerto quando se executa esses pré-requisitos é muito grande. Por isso, quando se fala em virada da década, é importante destacar que estamos planejando a cidade para quando ela atingir 1,5 milhão de habitantes (atualmente tem 895.982). Não é somente para daqui dez anos. Fizemos uma Rua 14 de Julho para a década de 2030, estamos fazendo a Ernesto Geisel para o mesmo período. Estou deixando de tapar buracos para recapear ruas, pensando no futuro. Portanto, todas as ações da nossa gestão não são para um quinquênio ou uma reeleição, e sim para duas ou três décadas à frente.
Como foi o planejamento para esses próximos anos, sobretudo, com o novo Plano Diretor?
É um ponto fundamental. Meus professores sempre me diziam que o envolvimento gera desenvolvimento. E no Plano Diretor, envolvemos todos aqueles que sabem, que têm conhecimento. O prefeito, por mais preparado que ele possa ser, não tem a capacidade de saber de todas as coisas da cidade, que vão, por exemplo, desde o controle de vacinação contra a raiva nos animais até a construção de pontes em estradas vicinais. Diante disso, o que o prefeito faz? Envolve não somente os servidores, mas toda a sociedade. O Plano Diretor foi tecido por diversas instituições não governamentais. Tivemos quase 80 audiências públicas, em todas as regiões da cidade, com lideranças comunitárias. Estivemos na Câmara, discutimos e conseguimos aprová-lo.
Em meio à polarização, como consegue dialogar com vários partidos e vários setores da sociedade com pensamentos tão diferentes?
É com muita oração, humildade, cedência e flexibilidade. Ser gestor é igual ser um marido, ou uma esposa. Se não for flexível, humilde e aceitar as opiniões de todos, tende ao fracasso. Nós tivemos condições de caminhar em todas as instituições. Por exemplo, quando começamos a gestão, sempre recebíamos notificações do Ministério Público Estadual. Eles queriam termos de ajustamento de conduta em todos os lugares, e as notificações vinham de todas as áreas: patrimônio, saúde, direitos humanos, meio ambiente, bem-estar animal, entre outras, e eles faziam isso por quê? Porque não acreditavam mais no gestor anterior. A gente foi com calma, com diálogo, numa construção de atos, e foi assim que eles foram vendo a nossa sinceridade. Uma vez disse a uma promotora que passou uma lista de ações a serem feitas que não iria conseguir atender à recomendação. Ela me disse que entraria com uma ação e eu disse: “Porque a senhora, em vez de me pedir o abecedário inteiro, não começa pedindo pelas cinco vogais? Me ajude”. Mostrei que era um outro rosto, outra imagem e outro ritmo administrativo. Foi dessa forma, por exemplo, que dialogamos com a Câmara.
Sobre a Câmara, nos conte como consegue o feito de praticamente não ter oposição lá dentro?
O que existe são alguns totalmente contrários aos interesses populares. O Vinícius Siqueira (DEM) votou contra empréstimo para asfaltar o Nova Campo Grande, o Rita Vieira. Também votou contra a recuperação dos parques. Ele deve estar apostando que o eleitor dele, ou tem memória curta, ou vai se esquecer de como os vereadores votaram. Eu, sinceramente, não sei como ele vai pedir voto no Nova Campo Grande, no Rita Vieira. Quantas pessoas desses bairros votaram nele? Hoje votariam contra.
Mas você dialoga com todos os partidos?
Sim, conversamos com todos. Deus foi tão generoso comigo que até a composição ideológica daqueles que hoje compõem o Parlamento Legislativo é madura e extremamente sabedora da função deles. Por exemplo, a ala que poderia me trazer alguns pontos de interrogação: PP e PT. Cazuza, Valdir Gomes e Dharleng Campos (do PP). Todos são experientes e sabem como é o Poder Executivo. Cazuza é muito experiente, Dharleng foi secretária, Valdir é um servidor com vários anos de trabalho. Ayrton Araújo (PT) é super compreensivo. Quando eles vêm aqui, pedem, requerem, solicitam e eu digo o que é possível, o que não é possível e o que a gente pode ir fazendo aos poucos.
Qual o balanço que você faz do ano de 2019?
A política é feita por momentos. Sempre tenho dito que as mãos que aplaudem são as mesmas que atiram as pedras. A boca que elogia é a mesma que xinga. A partir daí, na política do nosso país, a gente só tem de acertar e cada vez mais mostrar efetivamente o resultado do trabalho. Quando o gestor vai bem, há um silêncio e, quando vai mal, existem as vaias. Nunca um político deve solicitar aplausos. Ele pode, sim, receber o reconhecimento, como estamos recebendo. Eu sou uma pessoa extremamente simples, de decisões justas e que ando sozinho em todos os lugares da cidade. Eu não tenho redes sociais para atacar ou contra-atacar. Eu não tive rusga com nenhuma instituição. Com todos da imprensa eu dialogo. Alguns, que falam mal, como alguns perfis, quando se identificam, eu converso com eles e indago: “Isso aqui você sabe como foi?”. As pessoas têm de saber como tudo é feito. O Movimento Brasil Livre, vários garotos, vieram aqui para perguntar da tarifa do transporte coletivo. Aí eu mostrei o contrato para eles, e eles viram que são cláusulas e não depende do prefeito. Porque o conteúdo é feito em nome da cidade e, se o contrato está vigente, as cláusulas estão vivas, consolidadas pelos julgamentos de todas as esferas judiciais, temos de cumprir. Podemos até rediscutir o contrato, mas, enquanto isso não é feito, temos de honrar as cláusulas.
O conceito de mobilidade urbana mudou muito nos últimos anos. Para você, as linhas do transporte coletivo e a organização do trânsito devem ser revistas?
Sentar e rediscutir o transporte é uma necessidade. Principalmente aquilo que foi delimitado na licitação de quase oito anos atrás. Naquele tempo, o sistema de mobilidade do transporte coletivo era um e hoje é totalmente diferente. Naquela época, mensuravam-se 380 mil veículos nas ruas e, hoje, temos o dobro disso. A capacidade de uma família ter um carro dentro de uma garagem é muito grande e ter dois ou três carros por família também tem sido uma crescente. E o transporte coletivo, eles (o Consórcio Guaicurus) têm dito o seguinte: “Ah, o contrato diz que o município deveria ter feito corredores para gente”. Não fez. O município não zelou pela pavimentação regular da malha viária. O Município de Campo Grande é aquele que possui o maior número de gratuidade de passagem.
E qual a influência da gratuidade no transporte?
Essa gratuidade de passagem, quem mais utiliza são idosos e alunos da rede estadual. E eles não ajudam em nada ao município. O número é grande de idosos, estudantes da rede estadual, líderes comunitários e leis que dão gratuidade. De cada dez pessoas que entram no ônibus, 4,5 não pagam. E aí alguém tem que pagar essa conta. É muito fácil o governo federal chegar e falar: “Olha, eu vou reduzir a gratuidade do idoso de 65 para 60 anos”. Tudo bem, eu acho legal, vamos reduzir. Mas como que o governo federal vai ajudar o município? Essas pessoas de 60 a 65 anos merecem a gratuidade, mas quem vai pagar por isso? Eles vão mandar uma ajudinha? Não mandam. Só mandam a lei e mandam a gente cumprir. Por isso é necessário a gente sentar e rediscutir. Olha, eu bato muito na questão de ônibus com ar-condicionado. Eles (Consórcio Guaicurus) chegam para mim e falam: “Olha, eu venci a licitação sem ônibus com ar-condicionado, eu não tinha a obrigação de entregar, mas eu entrego”. Vá em uma concessionária e faça a cotação de um carro sem ar e um carro com ar, o preço com ar-condicionado é maior. Quem é que vai pagar? Mas digo que, mesmo assim, com jeitinho, diálogo, comunicação, eu já consegui 34 ônibus com ar, para quem tinha zero.
E sobre a área da saúde, que também sempre foi um gargalo, qual o trabalho feito nesses três anos?
Nós recebemos a saúde pública com 16 Unidades Básicas de Saúde de Família paradas desde 2011. Nós já entregamos 12 e não apenas entregamos, como equipamos, estruturamos e colocamos quadro funcional. Eu entreguei agora, no Arnaldo Estevão Figueiredo, uma que começou em 2009. Estava fechada, abandonada. Além disso, fizemos mais três Clínicas da Família, reformamos oito unidades de saúde, que, quando chovia, vocês da imprensa iam fazer matéria de alagamento, como no Zé Pereira, Jardim Botafogo. Todas elas nós fizemos um trabalho de reforma e estruturação. Também fizemos a maior chamada de concurso, abrimos um outro concurso e hoje nós compomos 80% do nosso quadro. Pela primeira vez na história da cidade, temos o número completo de ambulâncias do Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) em relação ao número de habitantes. Recebemos a cidade com três viaturas em operação. Hoje são 13 e três reservas. Fora isso, pegamos o almoxarifado e o estoque de remédios com 17% de abastecimento. Hoje, estamos com 89% de abastecimento.
E na educação, o problema do material escolar atrasado foi resolvido?
Nós melhoramos, mesmo em situações adversas das anteriores. Nas gestões anteriores, uniformes e material não eram entregues no primeiro dia de aula. Segundo, eles não tinham cinco refeições ao dia. Terceiro, eles não tinham equipes de mais de 20 nutricionistas, como nós temos. Também não tinham cardápio diferenciado de glúten e lactose, como nós temos.
E os projetos de esporte e lazer?
Nós encontramos nossos nove parques fechados, por determinação da Justiça, a pedido do Ministério Público Estadual. Os portões tinham cadeados. No dia 2 de janeiro de 2017, um dia depois da posse, eu fui em alguns parques e a população andava ao redor. Todos os nove parques estavam fechados porque o gestor anterior descumpriu os termos de ajustamento de conduta (TACs). Nós fizemos uma reunião com o Ministério Público em meados de janeiro e eles autorizaram a gente a reabrir com autorização do Corpo de Bombeiros e alguns ajustes de iluminação e, de lá para cá, foi uma crescente. Devolvemos o Belmar Fidalgo totalmente requalificado. Não tínhamos dinheiro para isso, mas fizemos parceria com a inciativa privada. Investiram quase R$ 700 mil ali. Trocaram areia, toda a pista de caminhada foi feita novamente. Colocaram gradil na área do campo, trocaram todas as lâmpadas, fizeram arquibancadas. Os banheiros têm chuveiro quente e frio. Há academia de musculação gratuita, com instrutores. Saímos do Centro, vamos para a região norte: Tarsila do Amaral, região do Segredo. O parque está totalmente revitalizado, inclusive com piscinas que devolvemos à população. Lá tem aula de hidroginástica, balé infantil. Agora vamos ao Jacques da Luz, Moreninhas, região do Bandeira: totalmente modificado, e agora, em dezembro, dei a ordem de serviço para a praça da Moreninha 3 se transformar num parque.
O Parque Ayrton Senna poderá se transformar em um complexo esportivo?
Sim. Vamos ao Ayrton Senna, grande Aero Rancho, Região do Lagoa: pista de atletismo. Campo Grande era a única capital do País que não tinha. E é uma pista de atletismo com padrões internacionais, emborrachada, para corridas, salto triplo, salto em distância, arremesso de peso, arremesso de dardo, e com capacidade de receber delegações nacionais e internacionais. Terá iluminação completa, e espaço para transmissão ao vivo dos canais de televisão e também arquibancada. Na semana passada assinamos a autorização para uma piscina olímpica, uma piscina coberta, aquecida, de 50 metros. No Guanandizão, que vai receber a Liga das Nações de vôlei, o piso está lindo.
Pouco mais de um mês após a inauguração da revitalização da Rua 14 de Julho, qual o balanço que faz da obra?
A revitalização da Rua 14 de Julho foi um sucesso absoluto, acima das expectativas, e a reclamação que temos é da falta de conscientização das pessoas que jogam lixo nas ruas, e comerciantes de lanchonetes que deixam sacos na frente dos calçadões. No mais, só dados positivos: segurança, iluminação, arborização, tecnologia wi-fi e, acima de tudo, de mobilidade. E quando a gente fala em mobilidade não é carro apenas, é o pedestre também. A partir do momento em que nós tiramos uma faixa dos veículos, houve um alargamento de quase três metros de calçada. As pessoas transitam com as famílias lá dentro. A questão agora é apenas manter, os planos de manutenção nós já temos. A etapa 2 agora, vai pegar o quadrilátero. Padre João Cripa e Calógera, e Mato Grosso e Fernando Corrêa da Costa.
E como estão os planos de campanha para a reeleição?
Sobre reeleição, só vou pensar isso a partir de abril. Vou continuar trabalhando e executando as diretrizes estratégicas dos planejamentos que nossa equipe fez. Trabalhando em favor da cidade, e se a população entender que a gente deva dar sequência a frente da cidade, eu vou receber como mais um presente de Deus, e vou saber honrar a confiança dos campo-grandenses.
Fonte: Correio do Estado