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Patrimônio histórico é usado como estacionamento

Local pertence à associação que administra a Santa Casa e cobra R$ 3 milhões da prefeitura

O prédio onde funcionou o Colégio Osvaldo Cruz, localizado no cruzamento entre a Avenida Fábio Zahran e a Rua 15 de Novembro, no Centro de Campo Grande, e que desde 2015 voltou para a Associação Beneficente de Campo Grande (ABCG) – entidade que mantém a Santa Casa – continua sem destinação. Com algumas salas da área principal utilizadas apenas como depósito pelo hospital há quase dois meses, a parte de trás da construção foi cedida para o Camelódromo e abriga um estacionamento.

O local foi tombado pela Prefeitura de Campo Grande e seria destinado a uma “Escola de Saúde”, com cursos disponibilizados para a população, conforme projeto que a ABCG tem desde 2016. Mas, quatro anos depois, a ideia não saiu do papel. Vazio e degradado, parte do espaço foi cedida e, desde dezembro, é palco do entra e sai de veículos do estacionamento provisório do empreendimento popular.

De acordo com o vice-presidente da Associação dos Vendedores Ambulantes (AVA), Paulo Sérgio de Souza Gonçalves, responsável pelo Camelódromo, a parceria ocorreu porque há algum tempo eles têm procurado um espaço para a abrigar o estacionamento permanente para o comércio. Entretanto, como a região tem várias construções, eles não conseguiram um local.

Sem outra alternativa e como o local estava abandonado, sendo apenas vigiado por seguranças do hospital, a parceria foi fechada. Porém, tem previsão de duração somente até a quinta-feira (30). “É uma solução provisória, que se encerra agora. Vamos tentar renovar por mais um tempo, mas o que queremos mesmo é encontrar um local definitivo. Tem sido difícil”, afirmou Gonçalves.

Ainda conforme o representante, nesta semana as diretorias do hospital e do Camelódromo devem se reunir para definir se haverá a prorrogação da parceria.

SEM RESPOSTA

A reportagem entrou em contato com a Santa Casa para saber se a cedência seria mantida ou se o local voltaria a ficar abandonado, mas a entidade não respondeu.

Antes de voltar para a Santa Casa, o local abrigou uma escola municipal, entre 2005 e 2009. Em outubro de 1997, o prédio foi tombado como Patrimônio Histórico e Cultural de Campo Grande. Desde que voltou para a administração da ABCG – após o fim da intervenção pública no hospital –, nada foi feito no local.

No ano passado, a Secretaria Municipal de Cultura e Turismo (Sectur) chegou a questionar o presidente da Santa Casa, Esacheu Nascimento, sobre os danos ao prédio e sobre a execução da obra. A construção é de 1927 e está deteriorada.

Em visita feita pela reportagem do Correio do Estado ao local, há um ano, foi detectado que o prédio tinha paredes com pintura descascada; vidros quebrados; problemas estruturais, elétricos e hidráulicos; e infestação de cupins. Do lado de dentro, além da sujeira, havia fios e canaletas para instalação elétrica espalhados por todo o local, que também tinha infiltrações.

Por causa da cobrança, a Santa Casa trocou o telhado do local, porém, não há informação se os outros problemas internos foram resolvidos. A reportagem voltou ao local e percebeu que, mesmo por fora, é possível perceber que os vidros continuam quebrados e a pintura está comprometida. O hospital não respondeu se tem um cronograma para reforma do local.

Segundo informações obtidas pela reportagem, a Santa Casa tem utilizado a parte interna do antigo colégio como depósito para maquinário velho e macas sem uso.

A situação de abandono do prédio é, inclusive, investigada pela 34ª Promotoria de Justiça de Campo Grande, do Ministério Público do Estado (MPMS). A promotoria usou relatório do estado de conservação dos bens tombados pelo município, feito em 2017, mas apresentado em janeiro de 2018, para embasar a investigação.

A briga entre Santa Casa e prefeitura por conta do prédio foi parar na Justiça, já que em 2017 a ABCG entrou com ação pedindo pagamento de R$ 3 milhões. O hospital alega que o local passou a ser usado pelo município durante o período de intervenção do centro médico sem autorização da entidade. Com isso, a administração não pagou R$ 15 mil referentes à locação do prédio e, por isso, a ABCG cobra na ação judicial R$ 1,348 milhão do aluguel em atraso e outro R$ 1,7 milhão para a reforma do prédio.

DOAÇÃO

O prédio foi repassado à Santa Casa depois da morte do advogado Luiz Alexandre de Oliveira, que não tinha herdeiros e deixou seus bens a entidades beneficentes. O local foi construído para funcionar como armazém e, com o passar dos anos e dos donos, acabou virando um colégio em 1949.

Ele foi para o município apenas em 2005, quando a administração interveio na gestão da unidade hospitalar. Como o prédio era da ABCG, também acabou sob comando da prefeitura.

 

 

Fonte: Correio do Estado