
“Rir é um ato de coragem”
Produtor relembra passagem do ator Paulo Gustavo há 10 anos em Campo Grande
O Brasil ainda chora a perda de Paulo Gustavo. Maior nome de sua geração na comédia, o ator faleceu na terça-feira (04/05), aos 42 anos, em decorrência da Covid-19, após 52 dias internado no Rio de Janeiro.
Desde então, milhares de fãs e admiradores não cessam as homenagens, desde antigos vizinhos da cidade de Niterói (RJ), onde Gustavo nasceu, em 30 de outubro de 1978, a megaestrelas, como a cantora norte-americana Beyoncé.
Em Campo Grande, o produtor Pedro Silva nos conta detalhes da passagem de Paulo Gustavo pela cidade, há 10 anos.
O ator veio apresentar o espetáculo “Minha Mãe É Uma Peça”. O primeiro grande personagem televisivo, o cabeleireiro René, da série “Divã”, ainda estrearia nas próximas semanas, e o primeiro filme, baseado no espetáculo, somente dali a dois anos.
Mas o ator já tinha levado mais de 500 mil pessoas ao teatro para rir de Dona Hermínia Amaral, a mãe tresloucada a que Paulo Gustavo deu vida com tamanha graça. Tinha também já despontado para o público do cinema, levando René para a versão da sala escura de “Divã”.
“O Paulo estourou em 2009 com ‘Minha Mãe É Uma Peça’. Ele já tinha se apresentado em vários teatros do Rio de Janeiro, de Niterói e também em outros estados. Quando vi o sucesso do espetáculo, entrei em contato com a produção e apresentamos a peça em Campo Grande nos dias 26 e 27 de março do ano de 2011, sábado e domingo, no Teatro Glauce Rocha”, relata Pedro Silva.
O veterano produtor conta que o comediante e seu estafe dormiram três noites na cidade, no Bahamas Suíte Hotel.
“Chegou na sexta, se apresentou sábado e domingo e foi embora na segunda-feira. Geralmente é assim o meu esquema quando os artistas vêm se apresentar”, recobra Silva. “O Paulo era um verdadeiro humorista como poucos no Brasil. E é, sem dúvidas, a última grande revelação do humorismo brasileiro. Ele realmente agradava a plateia. Foram duas sessões lotadas”.
Homem-Espetáculo
As principais lembranças de Pedro Silva estão relacionadas à presença e ao carisma do próprio ator, dentro e fora e palco.
“Não lembro de nenhum destaque em termos de bastidores de produção, o cenário até que era simples. Mesmo porque o espetáculo era o próprio Paulo. Apesar de já ter estourado com o grande sucesso da peça, naquela oportunidade ele ainda não era muito conhecido em termos de Brasil. Sempre muito simpático, atendeu ao público depois da apresentação no camarim do Glauce Rocha”.
O jantar de despedida foi na Cantina Romana, com a equipe técnica do espetáculo, o produtor Pedro Silva e seus familiares, além da mãe do ator, Dona Déa Lúcia.
“Ele sempre carregou a mãe dele para baixo e para cima”, conta Silva. Dona Déa sempre foi a maior referência do ator, tanto na construção de seu personagem de maior sucesso quanto na vida.
“O Paulo era muito alegre e educado. No almoço e no jantar se mostrou muito querido, sempre contando piadas e alegrando a gente até fora do palco”, diz o produtor, lembrando que sua esposa, Dona Neusa, e o filho, o produtor Jamelão, estiveram no jantar.
Astro maior
Mas muita coisa se passou desde então, e as tiradas impagáveis do comediante não mais deixavam o País de boca fechada. Como essa: “A pessoa, quando não vem bonita, Deus indeniza; para mim veio o humor”.
A partir de 2013, com o lançamento de “Minha Mãe É Uma Peça – O Filme”, com direção de André Pellenz, Paulo Gustavo deu uma escalada vertiginosa como artista popular e hoje é considerado o maior fenômeno de público do cinema brasileiro, acumulando mais de 25 milhões de espectadores com as três produções lançadas da franquia cinematográfica.
O segundo filme (2016) conta com direção de César Rodrigues. E o “Minha Mãe 3” (2019), de Susana Garcia. Fora outros sucessos, como sempre multiplataforma, no cinema, na tevê e no teatro, a exemplo de “Minha Vida em Marte” e “220 Volts”.
Resultado: Pedro Silva passou os últimos tempos penando, sem sucesso, para trazer o ator novamente a Campo Grande.
“Nos últimos três anos, tentamos trazê-lo em várias oportunidades, porém havia muitas dificuldades de agenda, porque, nos últimos três anos, o Paulo fez vários filmes e ultimamente ele preferia fazer cinema do que viajar apresentando as peças”, diz o produtor.
“Também havia uma grande dificuldade porque o último espetáculo dele, chamado ‘220 Volts’, envolvia mais de 30 pessoas”, prossegue Pedro Silva, “só o elenco era de 20 pessoas, além do que era uma montagem muito grandiosa, com cenário complicado para montar. Nem o Teatro Glauce Rocha nem o Palácio da Cultura tinham condições de receber esse novo espetáculo”.
Militante e generoso
Bissexual assumido, Paulo Gustavo casou-se em 2015 com Thales Bretas e, por barriga de aluguel, o casal teve dois filhos.
Desde sempre um defensor público da causa LGBT, o ator também se tornou um militante da vida em tempos de pandemia, mesmo antes de contrair a doença.
Paulo Gustavo doou meio milhão de reais para a compra de oxigênio para a cidade de Manaus após ter divulgado o pedido de socorro de um morador da cidade.
A doação foi feita no mês de janeiro, em sigilo, e somente revelada recentemente. Assim como as doações para as obras assistenciais de Irmã Dulce, na Bahia, e do Padre Júlio Lancelotti, em São Paulo, que juntas somam mais de R$ 3 milhões.
A jornada do artista “que fica para sempre”, como declarou a atriz Fernanda Montenegro sobre Paulo Gustavo, não se limitou a mostrar, nas palavras do próprio comediante, que “rir é um ato de coragem”. Mostrou ainda o tamanho de seu coração e de sua generosidade milionária.